O controle da toxicidade causada pelos quimioterápicos em pacientes com câncer

A quimioterapia é um tratamento tóxico, seu uso tem por finalidade a eliminação das células de um câncer. A morte celular usualmente se dá pela ação tóxica do medicamento quimioterápico, que faz com que as células sejam impedidas de continuar o seu ciclo de divisão. Sendo assim, esta é uma toxicidade considerada desejável e controlável, sem a intenção de debilitar o paciente em demasia.

A toxicidade causada pelos quimioterápicos em animais com câncer levanta inú- meros questionamentos, por isto, a médica veterinária, cirurgiã e oncologista formada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp, Campus Jaboticabal), mestre em Cirurgia, doutora em medicina Humana em Ciências Médicas com enfoque em Oncologia Experimental e proprietária da Onco Cane (São Paulo/SP), Renata Afonso Sobral, explica que o efeito tóxico da quimioterapia causará apenas a parada do ciclo celular. “Um tumor cresce porque as células se proliferam indiscriminadamente. Preciso fazer com que essa proliferação seja interrompida, e que essas células parem de se reproduzir”.

Ela explica que mesmo tendo como objetivo do tratamento a indução do pa- ciente a uma certa toxicidade, isso é feito com segurança. “As doses hoje utilizadas no tratamento de quimioterapia dos animais com câncer são doses já pesquisadas, de conhecimento geral de causa e efeito. Invariavelmente, teremos algum grau de efeito colateral em praticamente todos os pacientes, porém são efeitos bem tolerados e controlados com tratamento de suporte”, pontua. Neste caso, entre os efeitos colaterais mais comuns está a mielossupressão, uma queda de resistência na qual se apresenta uma baixa contagem das células de defesa do paciente, o que ocorre em todos os quimioterápicos em maior ou menor grau, em poucos dias esta contagem volta a valores normais. Essa ação é denominada efeito transitório, conforme explica Renata.

O mais frequente
O câncer de mama em cadelas ainda é o de maior incidência nas clínicas veterinárias. dentro do grande holl de câncer de mama é registrada a existência de apresentações mais malignas que outras. aos que são francamente malignos, recomenda-se tratamento quimioterápico depois da cirurgia, sendo a droga usualmente escolhida para tratamento a doxorrubicina, uma medicação utilizada para tratamento desse câncer em cadelas, porém ela é cardiotóxica, apresentado toxicidade ao coração.

Outro efeito colateral bastante comum é a toxicidade do gastrointestinal. “Alguns pacientes podem ter diarreia ou gastrite em função do tratamento, esse tipo de efeito colateral pode ser tratado ou prevenido com medicamentos, como protetores de mucosa gástrica, uso de controle de náusea e vômito, o que já é realizado durante a quimioterapia com foco em prevenção”, afirma a oncologista e explica que os pacientes voltam para casa com receituário para utilização dos medicamentos por alguns dias, o intuito é minimizar os efeitos colaterais ou inibi-los.
A quimioterapia não é um tratamento com uma única droga. Existem vários medicamentos quimioterápicos que são indicados para tratar diferentes cânceres e, alguns destes, possuem toxicidades específicas. “Por exemplo, algumas drogas podem induzir a uma cardiopatia, outras nefropatia, reações alérgicas, etc.

O oncologista saberá como atuar de forma preventiva além de monitorar os pacientes, caso, durante o tratamento, estes exibam sintomas ou alterações relacionadas ao quimioterápico. Outra abordagem possível é optar pela troca do medicamento caso a toxicidade seja preocupante ou deletéria”, salienta. Todos os pacientes em tratamento quimioterápico realizam exames previamente, como os de sangue, hemograma, função renal e hepática, dentre outros necessários para cada caso. “Antes da aplicação avaliamos esses exames, se existir alguma alteração iremos definir pela adequação da dose ao paciente. Estes exames são um norte para verificarmos a possibilidade ou não da continuação do tratamento mais à frente”, explana.

“Posso ser mais agressiva ou prolongada no tratamento, depende da intenção em eliminar o máximo de células cancerosas para curar ou controlar a doença no paciente”

Com relação ao tempo de tratamento, Renata explica que a duração depende do tipo de câncer, pois existem protocolos que variam de dois a oito meses. A taxa de su- cesso também é relativa, pois está totalmente relacionada ao estadiamento da doença. O estadiamento do paciente informa qual a severidade da enfermidade, já que existe a possibilidade de uma disseminação da patologia para outros órgãos. “Então, posso ser mais agressiva ou prolongada no tratamento, depende da intenção em eliminar o máximo de células cancerosas para curar ou controlar a doença no paciente”, explica e completa que para tumores diagnosticados precocemente, onde a doença ainda não se disseminou, é estabelecido um tratamento mais simples e curto em comparação ao de um tumor em estagio avançado. Para Renata, os oncologistas brasileiros estão aptos a atender estas demandas, tanto no que se refere ao conhecimento quanto à técnica de tratamento. “Temos colegas qualificados trabalhando em diferentes locais no Brasil, além do importante respaldo da Associação Brasileira de Oncologia Veterinária (Abrovet), que está sempre muito preocupada na formação dos seus membros, no sentido de oferecer cursos, simpósios nacionais e interna- cionais e reuniões de consenso”, finaliza.

*Entrevista à Glaucia Bezerra