Embora os cães domésticos (Canis familiaris) sempre foram os detentores do título de melhores amigos dos homens, os gatos domésticos (Felis silvestris catus) têm ganhando cada vez mais destaque como companheiro humano. É sabido que cães possuem habilidades sócio-cognitivas semelhantes às humanas e, talvez, seja este o motivo pelo qual eles são propensos à criação de vínculos afetivos tão facilmente com pessoas e, desta forma, adaptarem-se tão bem a ambientes humanos. 

Muitas vezes ouvimos pessoas que, no senso comum, dizem que os gatos são pets indiferentes e anti-sociais. Mas na verdade vemos que gatos domésticos exibem grande flexibilidade na forma como se relacionam socialmente; eles têm a capacidade de viver solitariamente em vida livre, de viver em colônias extremamente gregárias e também de se adaptar muito bem em lares com seres humanos que possuem outras espécies animais como, por exemplo, cães. 

Acredita-se que, os gatos que se adaptam à companhia de outras espécies (humanas ou não) tenham experimentado interações benéficas e satisfatórias no início de suas vidas. A vida social de um gato começa na interação com sua mãe, seus irmãos de ninhada e outros gatos que possam estar presentes quando ele ainda é um filhote. 

No caso de gatinhos, que não estabelecem contato com humanos até as 4 a 8 semanas de idade, pode ser extremamente difícil que eles se vinculem a um ser humano ou, ainda, é possível que eles nunca o façam. Podemos ver isso em gatos ferais que, mesmo em ambientes urbanos, evitam a interação humana direta, mesmo que sejam dependentes de pessoas quanto à aquisição de comida ou outros recursos. 

Diferente do que vemos em cães, as oportunidades de socialização entre gatos não é uma oferta comum, como, por exemplo, aulas de treinamento especialmente destinadas à especie. Existem algumas experiências sobre o treinamento e socialização de gatos que fornecem respostas interessantes sobre a habilidade deles em tornarem-se mais sociáveis. Será que se nunca levássemos nossos cães para fora de casa para socializá-los e fornecê-los experiências positivas, eles não seriam animais mais medrosos e nervosos do são hoje?

A professora e pesquisadora Kristyn R. Vitale da Universidade do Oregon, nos Estados Unidos desenvolve um interessante trabalho de treinamento e socialização para gatos adultos com resultados favoráveis. A Dra. Vitale reforça a importância que a socialização precoce de gatos tem possibilidade de moldar tanto o comportamento como também o tipo de vínculo que os gatos podem formar com pessoas. 

Grande parte do estereótipo “anti-social” dos gatos pode ser decorrente de nossa percepção genérica e da falta de conhecimento científico sobre o comportamento social da espécie. Exemplo disso é o resultado de uma pesquisa conduzida pelo grupo de pesquisadores na Universidade de Oregon que listou algumas categorias de estímulos com o objetivo de despertar o interesse de gatos que incluia interação humana, comida, brinquedos e odor. Os resultados mostraram que a maioria dos gatos (50%) preferiu a interação com os seres humanos, seguida dos estímulos relacionados à alimentação (37%), a brinquedos (11%) e por fim odores (2%). Ainda, a pesquisa considerou que cada gato pode ter seu próprio perfil de preferência quanto àquilo que gosta e prefere. 

O papel na variação individual no comportamento dos gatos é apoiado por outras pesquisas que indicam que eles podem assumir posturas facultativas quanto à preferência em ser ou não sociais; até então não há total clareza por que alguns gatos preferem interagir amigavelmente conosco, enquanto outros evitam ou mostram-se receosos em nossa presença. Enquanto não temos dados científicos sobre isso, por que não procuramos interagir com eles? Eles podem simplesmente gostar e ter uma boa experiência conosco!

Literatura consultada 

Kristyn R. Vitale, Alexandra C. Behnke, Monique A.R. Udell.  Attachment bonds between domestic cats and humans. Current Biology, Volume 29, Issue 18, September 2019.

Kristyn Vitale Shreve. Cat Social  Lives: Current  Knowledge and Future Directions.  A publication of the International  Association of  Animal  Behavior Consultants, http://i aabc.org, May 2017.